
No senso comum, o real é o que está "lá fora", o mundo palpável e objetivo. Na psicanálise lacaniana, a realidade é, paradoxalmente, uma construção psíquica composta pelos registros do Imaginário e do Simbólico. O Real, por sua vez, é aquilo que escapa a ambos; é o resíduo, o impossível, o que não pode ser dito nem imaginado, mas que insiste em retornar. Trata-se de uma categoria clínica e ontológica que sofreu refinamentos ao longo do ensino de Lacan, evoluindo de uma perspectiva fenomenológica e biológica para uma definição puramente formal e lógica, culminando na teoria dos nós borromeanos.
O Real como Impossível e a Exclusão do Simbólico
No início de sua obra, Lacan utilizava o Real para descrever o que está fora da linguagem, muitas vezes associado ao corpo biológico em sua crueza ou à natureza bruta. Contudo, à medida que seu pensamento amadurece, o Real passa a ser definido negativamente em relação à ordem Simbólica. Se o Simbólico é o campo da linguagem, da lei e da cultura, onde tudo é mediado por significantes, o Real é o que resiste absolutamente à significação. Ele é definido pelo aforismo: "o Real é o impossível". Essa impossibilidade não é uma limitação técnica ou temporária do conhecimento humano, mas uma impossibilidade lógica. O Real é aquilo que não cessa de não se escrever.
Para entender essa resistência, imagine a linguagem como uma rede lançada sobre o mundo. A rede (o Simbólico) captura os objetos, nomeia as coisas e lhes dá sentido. No entanto, os "buracos" da rede ou aquilo que é pequeno demais para ser retido, ou vasto demais para ser contido, representam o Real. Ele é o trauma por excelência. Na clínica, o Real aparece como o "encontro faltoso" (tuché), um impacto que desorganiza a subjetividade do indivíduo porque não há palavras para processá-lo. Enquanto a realidade é tecida por fantasias (Imaginário) e discursos (Simbólico), o Real é o núcleo duro que permanece inassimilável. Ele é o "em-si" que nunca se torna "para-nós" através da representação. É a Coisa (Das Ding), o objeto absoluto que a linguagem tenta circular, mas nunca atinge.
A Diferença entre Realidade e Real e a Angústia
A distinção entre realidade e Real é fundamental para o rigor clínico. A realidade é o cenário onde vivemos, estruturado pela linguagem e pelas imagens que fazemos de nós mesmos e dos outros. É uma construção defensiva que nos protege do horror do Real. Lacan argumenta que o Real é o que "volta sempre ao mesmo lugar", uma repetição traumática que o sujeito não consegue simbolizar. Quando a barreira do Simbólico falha e o sujeito se depara diretamente com o Real, o afeto resultante é a angústia. Ao contrário do medo, que tem um objeto definido na realidade, a angústia é o sinal de que o objeto do Real (o objeto a) está próximo demais.
Nesse contexto, o Real é o que não faz sentido. O Simbólico é o reino do sentido e da dialética; o Real é o reino do "não-senso" radical. Ele se manifesta em fenômenos como o delírio psicótico, onde a "foraclusão" do Nome-do-Pai (o significante primordial) deixa o sujeito desprotegido diante do Real invasivo da pulsão. Mas ele também está presente na neurose, através dos sintomas que não se dissolvem apenas pela interpretação intelectual. O sintoma tem uma face de letra, de gozo puro que se repete independentemente do que o sujeito deseja conscientemente. O Real é, portanto, o limite da análise: chega-se a um ponto onde o sentido acaba e resta apenas a constatação de um núcleo de ser que não se traduz.
O Gozo e o Real do Corpo
Um dos desdobramentos mais sofisticados do Real é sua relação com o conceito de Gozo (Jouissance). Diferente do prazer, que busca o equilíbrio e a homeostase (conforme o princípio do prazer de Freud), o gozo é um excesso, uma satisfação paradoxal que muitas vezes envolve sofrimento. O gozo é essencialmente Real porque ele habita o corpo de uma maneira que a palavra não consegue domesticar completamente. Lacan postula que "só o Real é capaz de fornecer o substrato para o gozo". Quando falamos do Real do corpo, não estamos nos referindo à anatomia médica, mas à "carne" pulsional que vibra e exige satisfação além de qualquer utilidade biológica ou racionalidade simbólica.
Essa dimensão do Real explica por que os sujeitos persistem em comportamentos autodestrutivos ou sintomas dolorosos. Existe um "Real do sintoma" que é um modo de gozar. No ensino tardio de Lacan, o foco da análise desloca-se da busca pelo sentido oculto (decifração simbólica) para o manejo desse gozo real. A proposta é que o sujeito possa, ao final de uma análise, identificar-se com seu sinthome, uma grafia antiga para sintoma que designa a forma única de cada um amarrar seu Real, Simbólico e Imaginário para não cair na desestruturação psíquica. O Real, aqui, deixa de ser apenas uma ameaça externa e passa a ser reconhecido como a matéria-prima da singularidade de cada ser humano.
O Real no Seminário 20 e a Não-Relação Sexual
No seminário "Mais, ainda", Lacan leva o conceito de Real para o campo da sexuação, formulando uma de suas frases mais famosas e polêmicas: "Não há relação sexual". Com isso, ele não nega que as pessoas façam sexo, mas afirma que, no nível do Real, não existe uma complementaridade natural ou simbólica entre os sexos. Não há um significante que defina o que é "A Mulher" em sua essência, nem uma harmonia pré-estabelecida que una os sujeitos. O encontro entre dois seres humanos é sempre mediado por fantasias e objetos parciais (objeto a), que tentam, sem sucesso, tapar o buraco do Real.
O Real da não-relação sexual significa que há um vazio central na experiência humana. O amor, para Lacan, é o que tenta suprir essa ausência de relação, mas ele o faz através do Imaginário. O Real permanece como o ponto de falha, o mal-entendido fundamental que habita toda linguagem e todo encontro. Essa perspectiva retira a psicanálise do campo das teorias de adaptação ou de busca por harmonia conjugal. Reconhecer o Real da não-relação é aceitar a alteridade radical do outro e a impossibilidade de uma fusão completa. O Real é, portanto, o fundamento da ética lacaniana: agir em conformidade com o desejo, sem recuar diante do vazio que o Real impõe.
O Nó Borromeano e a Consistência do Real
Nos anos finais de sua vida, Lacan recorreu à topologia para explicar a estrutura do sujeito, utilizando o Nó Borromeano. Este nó consiste em três anéis (Real, Simbólico e Imaginário) interconectados de tal forma que, se um for rompido, todos os outros se soltam. Nesta fase, o Real ganha uma dignidade igual às outras ordens. Ele não é mais apenas o que "sobra", mas uma das três dimensões necessárias para a consistência da realidade humana. O Real é o que dá o "ex-sistência" ao sujeito, algo que está fora (ex) mas que sustenta o sistema.
Nessa topologia, o Real é o que impede que o Simbólico se torne um sistema fechado de significados infinitos e que o Imaginário se perca em espelhamentos narcísicos sem fim. O Real introduz o corte, a falha e a finitude. Ele é a prova de que a linguagem não pode tudo e que o homem não é mestre de si mesmo através da razão. O rigor lacaniano ao tratar o Real exige que o analista não tente "curar" o Real, pois ele é incurável. O objetivo é permitir que o sujeito invente uma maneira de lidar com esse impossível, transformando o "Real traumático" em uma "causa de desejo". É a passagem do Real que esmaga para o Real que move a vida.
Referências Bibliográficas
COORDENAÇÃO DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA. O Real em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
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ZIZEK, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
Psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica, com trabalhos publicados em revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos nacionais e internacionais. Atua no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à interface Arte e Psicanálise, com ênfase na investigação dos processos psíquicos refletidos na escrita literária, na música e no cinema contemporâneos, tais como: perversões; parafilias; fetichismo; neossexualidades; violência e cultura; privação e delinquência; adicções e toxicomanias; família em desordem.